Os 108 Espectros de Hades
Os guerreiros do Submundo
Os Espectros são os 108 guerreiros a serviço do deus do Submundo, Hades. Escolhidos entre as almas mais poderosas e corrompidas da história humana, são ressuscitados a cada guerra santa para combater os Cavaleiros de Atena e conquistar o mundo dos vivos. Seu único objetivo: preparar um mundo de silêncio e morte para seu deus.
Ao contrário dos Cavaleiros de Atena que queimam seu Cosmo para proteger a vida, os Espectros obtêm seu poder de sua aceitação da morte. Eles renunciaram à sua existência para se colocar sob a bandeira de Hades — uma abnegação total que lhes confere um formidável poder das trevas. Muitos foram homens comuns, até admiráveis, corrompidos pela promessa da ressurreição ou da vingança.
Cada Espectro veste um Surplice — o equivalente infernal dos Cloth dos Cavaleiros. Essas armaduras das trevas estão ligadas às 88 constelações e estrelas maléficas, e só podem ser usadas por aqueles que abraçaram a morte. Seu poder é comparável ao dos Cavaleiros de Prata, com os mais poderosos — os Juízes do Submundo — rivalizando com os Cavaleiros de Ouro.
O número 108 não é por acaso: está no coração da filosofia que sustenta o exército de Hades, com cada Espectro representando uma estrela maléfica específica na cosmologia de Saint Seiya. Sua hierarquia é rígida, dominada pelos três Juízes do Submundo — Radamanto, Minos e Éaco — que encarnam a justiça implacável do reino dos mortos.
A origem do número 108
O número 108 é diretamente inspirado no romance clássico chinês 水滸伝 — À beira da água (Shuǐhǔ Zhuàn), um dos quatro grandes romances clássicos da literatura chinesa, escrito no século XIV. Esta obra-prima apresenta 108 fora-da-lei heroicos, cada um encarnando uma estrela celestial — 36 estrelas celestes e 72 estrelas terrestres — reunidos em torno do líder Sòng Jiāng para lutar contra a corrupção imperial.
Na tradição budista e hindu, o número 108 possui um profundo significado sagrado. Representa o número de desejos mundanos (煩悩, bonnō em japonês) que acorrentam a alma ao sofrimento. Os templos budistas tocam seus sinos 108 vezes na véspera do Ano Novo para purificar essas 108 tentações. Kurumada inverteu brilhantemente esse simbolismo: no reino de Hades, os 108 servem à morte em vez da libertação.
Masami Kurumada, grande admirador da literatura clássica e do simbolismo oriental, teceu essa referência no coração de seu universo. Os 108 Espectros correspondem às 108 estrelas maléficas (Jashin-sei), espelho sombrio das constelações ligadas às armaduras dos Cavaleiros. Onde Atena representa a luz das estrelas benevolentes, Hades governa sua sombra.
Essa dualidade está visualmente materializada na obra: a imagem dos três Juízes cercados de suas tropas lembra diretamente as ilustrações tradicionais do romance chinês. A imagem de À beira da água nesta seção — uma representação dos 108 heróis — testemunha essa influência direta que Kurumada reivindicava como fonte de inspiração maior.
Os Espectros nas guerras santas
Na série original, os Espectros aparecem em massa durante o arco de Hades. Eles primeiro invadem o Santuário de Atena habitando os corpos ressuscitados de Cavaleiros de Ouro falecidos — Saga de Gêmeos, Camus de Aquário, Shura de Capricórnio — voltando as armaduras de ouro contra sua própria casa. Essa primeira onda constitui um choque emocional brutal para os protagonistas.
Os três Juízes do Submundo são os Espectros mais poderosos depois do próprio Hades. Radamanto do Wyvern é o mais imponente — sua Grande Roda do Karma pode esmagar a própria alma de um adversário. Minos do Grifo manipula almas como marionetes. Éaco do Garuda é o mais veloz e cortante. Os três presidem no Inferno para julgar as almas dos mortos.
O arco se divide em três fases: a invasão do Santuário, a descida dos Cavaleiros de Bronze ao Inferno e a batalha final no Elísio. Em cada etapa, os Espectros apresentam poderes crescentes — de guardas ordinários às elites do Inferno, até os servos diretos de Hades em seu domínio sagrado. Os Cavaleiros de Bronze devem transcender seus limites em cada encontro.
Um momento crucial do arco é o sacrifício dos doze Cavaleiros de Ouro — retornados do Submundo para quebrar o Muro dos Lamentos. Diante do exército de Espectros, os Cavaleiros de Ouro falecidos (incluindo Saga, Shura e Camus, anteriormente usados como Espectros) escolhem a redenção em vez da servidão, sacrificando seu Cosmo para abrir o caminho para seus cadetes de Bronze.
Em The Lost Canvas, a guerra santa do século XVIII apresenta um exército de Espectros igualmente formidável. Shiori Teshirogi desenvolve mais as personalidades individuais: Radamanto continua o mesmo juiz implacável, mas também encontramos Espectros com motivações mais matizadas — como Isaac, o discípulo traído de Degel, ou os servos pessoais de Hades. The Lost Canvas humaniza os Espectros sem absolvê-los.
Em Next Dimension, o próprio Kurumada revisita a guerra santa de 1747 e apresenta Espectros que cruzam com os Cavaleiros de Bronze do presente — Shun, Hyoga, Shiryu — lançados ao passado. A continuidade entre as duas guerras santas revela que o ciclo dos 108 Espectros se perpetua incessantemente através dos séculos, ancorado na própria natureza de Hades.
Os Surplices — armaduras das trevas
Os Surplices são as armaduras dos Espectros — o equivalente infernal dos Cloth dos Cavaleiros. Forjados não por Hefesto mas moldados pela própria essência do Submundo, estão ligados às constelações mais sombrias do céu. Como os Cloth, aparecem primeiro em forma compacta antes de se montarem sobre o guerreiro — mas sua estética evoca criaturas da noite, a decomposição e o além em vez das estrelas benevolentes.
O poder de um Surplice é geralmente comparável ao de um Cloth de Prata, com os Surplices dos Juízes atingindo o nível dos Cloth de Ouro. Uma característica notável: os Surplices podem ser usados por almas, não apenas por corpos vivos — o que permite aos Espectros se manifestarem mesmo após a morte. Essa propriedade única torna os Espectros adversários particularmente difíceis de derrotar definitivamente no Submundo.


